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Aluno não é único culpado por baixo desempenho no Enem, dizem especialistas

20/01/2015 - 19:00h



Mais de meio milhão de estudantes tiraram zero na prova de redação (Foto: Divulgação)



O Ministério Da Educação (MEC) divulgou na última terça-feira (13) o resultado do Exame Nacional Do Ensino Médio (Enem) de 2014 e um dado em especial chamou atenção: 529.374 estudantes zeraram na prova de redação - enquanto apenas 250 conseguiram a nota máxima, mil pontos.

O número preocupante fez especialistas questionarem a qualidade de ensino no país. A professora Roberta Fabron Ramos Mandelli, mestre em teoria e história literária pela Unicamp, não vê apenas uma causa pontual para o desempenho insatisfatório na redação.

"Este fracasso se deve a um conjunto de fatores que vão desde o desinteresse pela leitura e informação no geral por parte dos estudantes, passando por uma falta de estímulo ao acesso a textos que ofereçam conteúdo crítico e elaborado em todas as disciplinas ministradas no ensino fundamental e médio, até um ensino deficitário e pouco crítico da língua portuguesa", analisa.

Ela afirma ainda que, ao contrário do que muitos estudantes alegaram, o tema deste ano - cujo enfoque era ética na publicidade infantil - não foi mais difícil do que nos outros. "Foi até mais fácil do que alguns abordados em anos anteriores, como a Imigração no Brasil", avalia.

Segundo a professora, o problema novamente tem relação com a superficialidade com que se trata a questão da leitura hoje em dia. "Muitos estudantes demonstraram isso em Entrevistas sobre a prova: esperavam o óbvio, a crise da água, a Copa do Mundo... O tema, porém, saiu da zona de conforto, do que se vê mastigado e resumido na página inicial de qualquer site de notícias. Mas o campo de discussão da temática trazia questões muito debatidas, como ética, consumismo, mídia", explica.

Já para o Professor de língua portuguesa do Damásio Educacional, Diogo Arrais, o resultado do Enem mostra um problema que não é de agora, principalmente por parte do ensino público. "Muita gente não sabe, mas a redação é considerada basicamente uma matéria extracurricular em várias escolas. Então, antes de criticar o aluno, deve-se pensar muito sobre o próprio sistema que não tem uma valorização do profissional de língua portuguesa; muitas vezes somente um professor tem que cuidar da parte da compreensão textual, da parte gramatical e também da parte da produção de texto", observa.

E Arrais vai mais longe. "Quem vai corrigir essas redações? Se fizermos um breve levantamento, vamos saber facilmente que os alunos no Brasil não têm a produção de texto criteriosamente analisada e corrigida. E, é claro, que a herança disso é uma nota lamentável em qualquer processo seletivo. Não é um problema do aluno em si, é um problema de mudança do sistema de ensino", acrescenta ele. 

Durante coletiva de imprensa para apresentarem os resultados dos exames, representantes do ministério elencaram alguns motivos que levaram ao vexame na redação. Segundo a pasta, boa parte dos candidatos (217.339) reprovou porque fugiu do tema proposto. O segundo erro mais cometido que acarretou na anulação foi copiar o texto motivador (13.039) e a terceira competência também bastante descumprida na redação foi escrever menos do que sete linhas (7,8 mil).

Mesmo dizendo que o MEC ainda não tem uma resposta definitiva para os mais de meio milhão de zeros, o ministro da Educação, Cid Gomes, relaciona o resultado ao tema da avaliação que, segundo ele, foi pouco debatido.

E, ao ser questionado se estava satisfeito com o resultado, Gomes admitiu: "Claro que não. Para o meu conceito, em matemática e redação houve uma queda, ao tempo em que em ciências da natureza houve uma elevação. Ao meu juízo, quem deve se debruçar sobre esses números é a comunidade acadêmica. E o MEC disponibilizará todos os dados", conclui.

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Fonte: Uol