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Carregar a família para estudar no exterior aumenta estresse e burocracia, mas vale a pena

27/11/2012 - 05:00h

Estudar no exterior abre a cabeça e portas do mercado de trabalho, mas os futuros intercambistas devem estar preparados para enfrentar, além de novas experiências, muita burocracia e trabalho na organização da viagem. O estresse para quem topa uma viagem longa vai do aluguel de uma casa no exterior à venda de bens, como o carro, no Brasil.

O estresse praticamente duplica quando o brasileiro é casado e com filhos, e decide manter a família reunida. Daí, além dos documentos de entrada exigidos pelo país de destino para todos os familiares, o viajante tem de resolver coisas como encontrar escola para o filho no exterior. O processo longo, mas vale a pena, é o que dizem os intercambistas que aceitaram o desafio.

Viemos para os EUA [em 2009] com a intenção de ficar mais que um ano. A mudança nos deu trabalho, vendemos o apartamento e os carros da família, deixamos procurações no Brasil em nome de alguns parentes, conta YuriRamos, 43, que morou na cidade de São Paulo antes de fixar residência em Cambrige (Massachusetts, EUA) com a mulher e as filhas de 6 e 14 anos para cursar um MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), por conta própria, sem qualquer bolsa de estudo.

Na parte burocrática, tive que comprovar que poderia arcar com as despesas do curso e a manutenção da minha família. Os caras são super rigorosos e cricri com os detalhes. Os formulários iam e voltavam por e-mail, fala Ramos sobre as semanas que antecederam a viagem.

Chegando lá, passei o que se chama semana de orientação para entender como o curso funcionava e, também, para buscar moradia, encaminhar a papelada das minhas filhas para a escola, abrir conta em banco. O ritmo das aulas do MBA é tão intenso, que não dá para resolver muita coisa depois que a aula começa para valer.

DEU ATÉ VONTADE DE DESISTIR

Para Isabelle Christine Somma de Castro, 40, casada e com uma filha de um ano, a dor de cabeça teve início no momento em que foi aprovada para um doutorado-sanduíche no Departamento de Estudos Asiáticos e do Oriente Médio da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, com início neste ano. A alegria inicial ao receber a notícia deu lugar à correria.

Logo que soube que meu nome havia sido aprovado, comecei a enfrentar a burocracia aqui. Pedi uma bolsa de estudos, procurei creche para minha filha e apartamento no exterior, além de, ao mesmo tempo, alugar o meu aqui em São Paulo. Mas o visto britânico é complicado e depende de ajuda de despachante ou advogado, sem falar da grana para tirá-lo. É muito cansativo. Deu até vontade de desistir, desabafa.

A bolsa cobre gastos mensais de 910 libras (cerca de R$ 2.900), mais uma ajuda para instalação de 480 libras (R$ 1.500), passagem aérea e terrestre para o destino final e seguro saúde.

Isabelle lembra que vários detalhes precisam ser checados e pensados antecipadamente pelas famílias. O governo britânico dá ajuda de custo para quem necessita, mas, no caso dela, sendo estrangeira, não tem direito a esse benefício. A creche da filha acaba saindo pelo valor integral (608 libras ou cerca de R$ 2 mil para cinco horas diárias de segunda a sexta).

Para quem tem filhos em idade pré-escolar, o negócio é juntar dinheiro para morar razoavelmente bem e pagar a creche. Em idade escolar é mais fácil: as escolas são gratuitas e muitas têm programas com enfoque no multiculturalismo para ambientar as crianças. Ouvi relatos muito bons a respeito.

SAUDADE É O DE MENOS

A professora Ana Luiza Muccillo-Baisch, da FURG (Universidade Federal do Rio Grande), no Rio Grande do Sul, também passou por momentos tensos com a documentação da filha para a França.

Com mestrado e doutorado em biologia da saúde pela Universidade de Bordeaux II, Ana teve dúvidas se o visto de uma de suas filhas, então com 14 meses, sairia ou não.

Foi um processo bem traumático, porque o Consulado da França no Brasil levou meses para dar o visto da criança, conta. O problema só foi resolvido quando meu orientador de pós-graduação contatou um funcionário do Ministério das Relações Exteriores francês e contou a luta e a dificuldade enfrentada com o consulado no Brasil. De maneira misteriosa, os vistos saíram em poucas horas.

Apesar dos perrengues, os entrevistados são positivos ao falar da experiência de se estudar no exterior levando a família junto. Para os acadêmicos, há exposição do campo de estudo em nível internacional e mais chances de cooperação com outros pesquisadores. Para os não acadêmicos, aumentam as oportunidades de trabalho.

Sinceramente, não vejo desvantagens, a não ser a separação das crianças de seus avós, diz Ana. Ficar com saudades da feijoada e da caipirinha, já era! Pensando assim, no país de origem que ficou para trás, não nos permitimos descobrir as coisas boas que o novo país oferece, comenta Ana.

Para Ramos, que ainda vive nos Estados Unidos, a saudade diminui, mas não vai embora. De certa forma, a gente acaba se acostumando a viver longe da família e dos amigos que ficaram no Brasil.



Fonte: Uol



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