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Cursos de formação geral ganham espaço em Hong Kong e Cingapura

11/01/2013 - 12:00h

A necessidade de formar estudantes com aptidões e habilidades básicas que transcendam a capacitação para o exercício de uma atividade profissional – com base em um currículo Universitário mais abrangente, centrado na preparação do indivíduo para o aprendizado contínuo ao longo da vida – tem provocado interesse crescente na formação geral (ou "artes liberais") na Ásia. Atualmente, dois dos chamados tigres asiáticos implantaram ou estão em vias de adotar o modelo curricular da educação geral, que se opõe àquele estritamente especializado ou voltado para as necessidades imediatas de empregabilidade.

Alunos da Universidade de Hong Kong - HKU/Divulgação

HKU/Divulgação
Alunos da Universidade de Hong Kong

"Com a globalização e um futuro de incertezas, as gerações mais novas precisam estar preparadas, mas não sabemos exatamente com que tipo de futuro vão se deparar. Por essa razão, estamos tentando encontrar meios de torná-los mais bem preparados", afirma o Professor Rui Yang, da Universidade de Hong Kong (HKU, na sigla em inglês).

A HKU é uma das oito instituições públicas de ensino superior financiadas pelo governo autônomo da região administrativa especial chinesa. Essas instituições, que reúnem 85% dos alunos do sistema de ensino superior, ampliaram os Cursos De Graduação de três para quatro anos, a partir do começo do ano letivo de 2012, iniciado em setembro, para oferecer grades interdisciplinares e estruturadas em um currículo amplo.

"Em vez de torná-los extremamente especializados ou profissionalizados, decidimos proporcionar aos estudantes um conhecimento mais geral. Com esse conhecimento geral, esperamos que desenvolvam seu pensamento crítico, que se tornem mais sociáveis, que sejam capazes de trabalhar com pessoas diferentes e com povos diferentes, de culturas e religiões distintas", explica Yang, que é professor associado na Faculdade de Educação da HKU.

Cingapura, por sua vez, vai receber em agosto de 2013 a turma inicial da sua primeira faculdade de artes liberais, resultado da parceria entre a Universidade Yale e a Universidade Nacional de Cingapura (NUS).

Ao lado de Hong Kong, Cingapura está entre os países com os melhores desempenhos em matemática e leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), acima da média dos membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No entanto, especialistas apontam que a capacidade dos estudantes desses dois países de resolver provas com êxito não se reflete no desenvolvimento da criatividade, do pensamento crítico e da capacidade de compreensão de outras culturas, necessários para um mundo interligado e sujeito a rápidas transformações.

Em comum, além de terem apresentado crescimento econômico vigoroso e processo de industrialização acelerado entre as décadas de 1960 e 1990 — ao lado de Coreia do Sul e Taiwan —, essas economias transformaram-se em centros financeiros internacionais, que demandam recursos humanos qualificados para atuar na economia do conhecimento. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Cingapura e Hong Kong também estão entre os países com os maiores porcentuais de estudantes matriculados em cursos superiores de ciências e engenharias, próximo de 40% do total. No ano letivo 2011/2012, dos 75 mil alunos matriculados nas oito Universidades públicas de Hong Kong, 36% estavam cursando ciências ou engenharia e tecnologia, proporção que se manteve inalterada na comparação com o ano anterior.

A reforma de educação geral implantada em Hong Kong incluiu um ano a mais no currículo, formando um núcleo básico de disciplinas nesse ano inicial, variável de universidade para universidade. No segundo ou terceiro ano também poderá haver disciplinas novas com esse caráter holístico, dependendo do curso escolhido. Por exemplo, na Universidade Chinesa de Hong Kong (CUHK), quatro áreas básicas estão compreendidas nesse núcleo: herança cultural chinesa; natureza, tecnologia e ambiente; sociedade e cultura; e personalidade e humanidade. As disciplinas básicas formam cerca de 30% dos créditos necessários para graduação na CUHK, sendo que o restante se divide entre as disciplinas da área principal escolhida ("major"), as disciplinas complementares ou secundárias de interesse do aluno ("minor") e as demais eletivas.

O novo sistema de graduação em quatro anos equipara-se ao da China continental, dos Estados Unidos e de parte da Europa, enquanto o modelo de três anos, adotado até então, era herança do período de colonização britânica. A decisão sobre a mudança para o modelo de educação geral foi, de certa forma, imposta pelo governo, apesar de demandada por lideranças do setor empresarial, dentro de um extenso processo de adaptação que incluiu a modificação na estrutura do ensino secundário e a preparação de Professores. Muitos membros da comunidade universitária, entretanto, consideram a reforma positiva, já que o modelo britânico se baseava em uma formação em que a especialização ocorria precocemente.

Para o professor Bob Adamson, chefe do Departamento de Educação Internacional e Aprendizagem Continuada do Instituto de Educação de Hong Kong (HKIEd), os alunos estão reagindo de forma diversa às mudanças, com alguns aproveitando a oportunidade de ampliar seus conhecimentos, enquanto outros estão contrariados e querem se dedicar apenas à área de concentração escolhida. Já os professores, apesar do trabalho extra para reformular os cursos e atuar em parceria com colegas de outras disciplinas, têm, em geral, aprovado a iniciativa. Segundo Adamson, muitos dos Docentes são provenientes do exterior, principalmente Austrália, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e China continental, o que facilita a adaptação a um sistema diferente do tradicional em Hong Kong.

"Há uma sensação de que a nova economia em Hong Kong – indústria de serviços – requer atributos de educação integral do indivíduo e competências relativas à inteligência emocional, como criatividade, pensamento crítico, empreendedorismo, comunicação e resolução de problemas", afirma Adamson, em Entrevista por e-mail. "Também havia uma sensação de que o velho modelo britânico era estritamente concentrado, especializando demasiadamente cedo, e que um currículo mais amplo poderia oferecer um equilíbrio melhor."

Jamil Salmi, pesquisador de ensino superior e ex-consultor do Banco Mundial em educação terciária, considera que, em geral, as iniciativas de Hong Kong e Cingapura são boas, pois "um dos riscos de se concentrar demasiadamente em ciência e tecnologia é de treinar pessoas que são estreitas em seus pontos de vista". "Depois da crise financeira, as pessoas criticaram aqueles com MBAs, que eram pessoas treinadas com visões financeiras sofisticadas, mas sem nenhum senso de responsabilidade corporativa ou social; e isso ocorre da mesma maneira com cientistas ou engenheiros", destaca Salmi.

Para Philip Altbach, diretor do Centro de Educação Superior Internacional (CIHE) do Boston College, a mudança é "muito positiva" e, no caso de Hong Kong, houve muito tempo para adaptação e desenvolvimento do novo currículo desde que o governo aprovou a reforma, em 2006. "As educações tradicionais asiáticas e europeias são demasiadamente especializadas, então, essa é uma oportunidade de oferecer um ano a mais para os estudantes; de certa forma, da maneira americana", diz, em referência à longa tradição de artes liberais dos EUA.

Desde 2008, a Fundação Fulbright levou para Hong Kong mais de duas dezenas de acadêmicos dos EUA especializados em artes liberais, para compartilhar a experiência americana com esse modelo curricular e colaborar com as oito universidades. Com uma verba de cerca de US$ 1 milhão, doada pela iniciativa privada de Hong Kong, esses profissionais contribuíram na configuração dos novos cursos, no desenvolvimento de docentes, na avaliação dos resultados de ensino e no desempenho geral dos programas.

Apesar da centenária tradição americana de artes liberais, Adamson discorda que o modelo esteja sendo importado dos EUA para Hong Kong, já que a educação integral do indivíduo é um conceito que existe na cultura chinesa desde os tempos de Confúcio. "A adaptação no ensino superior tem sido mínima; os estudantes podem fazer a escolha dos cursos de uma maneira mais ampla, porque podem frequentar cursos oferecidos por Faculdades diferentes daquela em que sua disciplina principal está localizada."

Diferentes formatos

Uma das oito instituições de ensino superior financiadas pelo Comitê de Subvenção de Universidades (UGC), a CUHK já contava com cursos de formação geral desde 1986. A nova reforma, entretanto, trouxe outros desafios para a administração da universidade, em currículo, infraestrutura, pedagogia e logística, entre outros. Atualmente, a CUHK conta com mais de 230 cursos de formação geral, oferecidos em mais de 40 departamentos de oito faculdades.

Em entrevista por e-mail, o reitor da CUHK, Joseph Sung, afirma que a reforma proporcionou mais espaço para que a universidade, fundada em 1963, pudesse redesenhar a estrutura curricular da graduação e adaptá-la às necessidades da sociedade contemporânea. "Muito trabalho de planejamento teve que ser feito para redesenhar o currículo, construir novas infraestruturas, contratar novos profissionais e expandir os serviços e instalações para os estudantes", afirmou.

Sobre o novo currículo, o reitor da CUHK relatou que um programa-piloto de educação geral foi realizado com um grupo selecionado de alunos durante três anos. Nesse período, foram realizadas avaliações entre os estudantes por meio de pesquisas quantitativas e discussões em grupo. "As conclusões foram muito encorajadoras, pois, depois de realizar os cursos, os alunos estavam demonstrando mais confiança ao ler textos difíceis e ao se deparar com grandes questões, e estavam mais preparados para aceitar pontos de vista diferentes e refletir sobre seus próprios interesses e valores", diz Sung. "As equipes de docentes envolvidas também ajustaram o conteúdo do curso em resposta à reação dos alunos."

Adamson, do HKIEd – que também faz parte do grupo de universidades financiadas pela UGC –, considera que um dos principais desafios a partir de agora é desenvolver formas adequadas e satisfatórias para avaliar a educação integral do indivíduo dentro do novo modelo. Para ele, as avaliações costumam tender para uma padronização que destoa dessa proposta de abordagem de ensino e aprendizagem. "São necessárias novas formas de avaliação que possam capturar o desenvolvimento integral do indivíduo de um modo considerado justo, confiável e válido", diz. O professor não manifesta muita expectativa de avanços com a reforma curricular, principalmente por causa do desafio do sistema de avaliação. "Espero alguns movimentos menores em direção à ampliação do conhecimento e das habilidades, mas nada significativo; ao menos até que os sistemas de avaliação sejam modificados", pondera.

Apesar de favorável, Rui Yang, da HKU, também tem reservas sobre o nível de avanço que poderá ser proporcionado pela reforma curricular, considerando a falta de estímulo das gerações mais jovens ao desenvolvimento intelectual para além do pragmatismo da empregabilidade. "Minha preocupação é se seremos ou não, mesmo com esse ano adicionado, capazes de tornar nossos alunos mais críticos e, ao mesmo tempo, mais tolerantes e mais esforçados", questiona Yang, que já lecionou na Austrália e na China continental.

"Hong Kong é uma sociedade rica. O PIB per capita, por exemplo, é muito maior que o do Reino Unido. A população jovem está se sentindo muito confortável, portanto, não quer trabalhar duro, já que tudo o que querem eles conseguem. Tudo o que lhes interessa são telefones celulares, jogos eletrônicos, roupas e tênis da moda", lamenta o professor da HKU. "É muito raro ver pessoas jovens se esforçando nos estudos, no trabalho intelectual ou fazendo perguntas inteligentes", afirma, lembrando que, apesar disso, os estudantes apresentam um ótimo desempenho em exames de leitura e matemática. "Em termos de pensamento crítico ou multiculturalismo, eles são muito limitados; não têm, definitivamente, uma perspectiva global."

Pioneirismo e polêmica em Cingapura

Em Cingapura, há quatro universidades financiadas pelo governo que concentram as matrículas de 56 mil alunos em cursos de graduação, segundo dados de 2011. O cenário do ensino superior no país é dominado pelas instituições de pesquisa, mas o governo tem reconhecido que é preciso proporcionar mais opções para os jovens, com uma diversidade que englobe também instituições com foco no ensino, de uma maneira mais equilibrada, como ocorre em Hong Kong. Atualmente, o setor público abriga pouco mais da metade dos estudantes que frequentam cursos de graduação. Dentro dessa estratégia de diversificação, em 2008 o Comitê para a Expansão do Setor Universitário sugeriu a inclusão de cursos de artes liberais em Cingapura e a ampliação dos recursos para as universidades públicas implantarem essa iniciativa.

A pioneira foi a Universidade Nacional de Cingapura (NUS), fundada em 1905 e formada por 15 faculdades. Em agosto de 2013, uma nova unidade, o Yale-NUS College, vai iniciar suas atividades. Oficializada em abril de 2011, a parceria Yale-NUS é uma faculdade autônoma da universidade, instalada junto ao seu campus. A nova instituição tem como proposta oferecer, em classes com turmas pequenas, uma educação integrada de ciências naturais, humanidades e ciências sociais, dentro da proposta de educação geral.

O currículo pretende sintetizar as perspectivas ocidentais e asiáticas em um programa de educação geral durante os dois primeiros anos do curso, antes da escolha da área de concentração. Do ponto de vista pedagógico, a ideia é enfatizar o pensamento crítico e a interação dentro do espaço de ensino, sendo que a maior parte das aulas será no formato de seminário com, no máximo, 18 alunos. Ao fim dos quatro anos, os graduandos receberão um diploma de bacharel em Artes ou em Ciências. Yale-NUS espera a matrícula de aproximadamente 150 alunos para a primeira turma.

Apesar da iniciativa inovadora de criação do primeiro campus com a marca Yale fora de New Haven, no Estado de Connecticut, para estabelecer a primeira faculdade de educação geral de Cingapura, muitas vozes se levantaram contra o projeto nos Estados Unidos. No primeiro semestre de 2012, docentes de Yale manifestaram-se contra o acordo Yale-NUS alegando que Cingapura é um país que não respeita as liberdades individuais de seus cidadãos, com restrições a manifestações políticas e a relações afetivas homossexuais, por exemplo.

Essas restrições seriam, na opinião dos docentes, frontalmente contrárias à ideia de uma faculdade de artes liberais, baseada na livre expressão de pensamento. Além disso, os professores afirmam não terem sido consultados sobre o acordo, o que seria um desrespeito às normas da universidade. O conselho de Yale, ecoando a opinião da direção, justifica a parceria explicando que o projeto não terá impacto na universidade americana, sendo uma instituição distinta, com reitor e diploma próprios, e que será totalmente financiada por Cingapura.

Procurado pela reportagem da Ensino Superior Unicamp por meio de sua assessoria, o reitor do Yale-NUS College, Pericles Lewis, não quis se manifestar sobre a polêmica. Segundo a assessoria, as discussões sobre as atividades de Yale-NUS deverão ser mais "proveitosas" à medida que se aproxima o início da primeira turma da faculdade. Na página da faculdade na internet, Lewis defende os princípios de liberdade acadêmica da nova instituição, apesar de dizer que as atividades deverão estar em concordância com a legislação local.

"O Yale-NUS College está comprometido com a liberdade acadêmica e a pesquisa livre. A política do Yale-NUS protege especificamente a liberdade de pesquisa, de ensino, de debate no campus e de publicação dos resultados", afirma Lewis, que é professor de inglês e literatura comparada em Yale. Ele pondera, no entanto, que "qualquer faculdade ou universidade deve obedecer às leis dos países em que opera" e cita as restrições sobre a livre expressão ou contra manifestações públicas em Cingapura.

Em dezembro de 2012, a polêmica ganhou um novo capítulo com uma carta aberta publicada pela Associação Americana de Professores Universitários (AAUP) expressando "preocupação crescente" com as liberdades acadêmicas e individuais na nova faculdade. O comitê da AAUP divulgou um documento que aponta 16 questões, entre elas: haverá proteção às manifestações de opinião de alunos e docentes feitas no campus, incluindo por e-mail, postagens na internet e aulas transmitidas pela rede, caso sejam críticas ao governo, às leis ou às autoridades públicas? Quais riscos a legislação cingapuriana apresenta a estudantes, funcionários e professores homossexuais ou bissexuais? Yale vai buscar tratar dos problemas de separação entre a liberdade acadêmica e os limites para manifestação política dentro e fora do espaço universitário? Segundo o documento da AAUP, "a maneira pela qual Yale vai responder a essas questões tem implicações não apenas para a comunidade de Yale, como também para a educação superior como um todo".

A contradição revelada nesse movimento em prol das artes liberais no Oriente reside no fato de que tanto Hong Kong quanto Cingapura são considerados países ou regiões em que o exercício da democracia não é pleno. De acordo com a mais recente edição do Índice de Democracia da Economist Intelligence Unit (EIU), Hong Kong e Cingapura são classificados dentro do grupo de "regimes híbridos" — entre a democracia e o regime autoritário —, ocupando, respectivamente, as posições 80ª e 81ª do ranking de 2011. A unidade de inteligência da revista britânica The Economist atribui a Hong Kong a nota 5,92, enquanto Cingapura obteve 5,89, de zero a dez. O destaque negativo de Hong Kong reside no quesito que considera o pluralismo e o processo eleitoral. Já Cingapura teve sua nota mais baixa no item que avalia a participação política. O Brasil, classificado como "democracia defeituosa" ou "democracia imperfeita", ocupa a 45ª posição, com 7,12 pontos.

Origens da formação em artes liberais vêm da Antiguidade

As raízes dos cursos de educação geral, tradicionalmente conhecidas como "artes liberais", remontam à Antiguidade, quando em Roma e na Grécia a camada mais pobre da população, os escravos e os estrangeiros exerciam atividades de menor prestígio, enquanto os homens livres e de alto poder aquisitivo dedicavam-se à música, gramática, retórica, aritmética, leitura, escrita e exercícios físicos. Na Grécia, havia três tipos de artes, ou habilidades: as belas artes ou artes criativas (entre elas, pintura, escultura, dança e música); as artes úteis, que requeriam perícia para execução, mas não exigiam tanta criatividade, como as artes manuais e mecânicas; e, por último, as artes liberais, que não tinham como objetivo uma representação física ou produção de objetos, mas consistiam no desenvolvimento da mente para a criação das ideias.

Essa tradição, de certa maneira, teve continuidade na Idade Média, quando duas estruturas compunham as universidades europeias: a Faculdade de Artes e as Faculdades Profissionais, como Teologia, Direito e Medicina. Inicialmente o aluno cursava as sete artes liberais, sendo três discursivas (gramática, dialética e retórica) e quatro "reais" (aritmética, geometria, astronomia e música). Depois desse estudo preparatório, os jovens dedicavam-se à formação para as carreiras de sacerdote, advogado ou médico nas Faculdades Profissionais.

No continente europeu, o conceito de que as classes menos privilegiadas e os trabalhadores deveriam receber treinamento técnico e que a aristocracia e a classe dominante deveriam usufruir da educação geral prevaleceu até a primeira metade do século XIX. José Camilo dos Santos Filho, professor da Faculdade de Educação da Unicamp, no artigo "Educação geral na universidade como instrumento de preservação da herança cultural, religação de saberes e diálogo de culturas", publicado em 2007, explica que, da Idade Média ao século XVIII, as artes discursivas foram hegemônicas nas universidades, com uma intensa valorização das humanidades e pouca ênfase na cultura científica, que ganharia mais espaço somente a partir do século XVIII.

Nas sociedades democráticas modernas, a concepção de educação liberal passou a ser alvo de questionamentos, já que o trabalho deixou de ser considerado como algo degradante da forma que era na antiga mentalidade escravocrata. "Dada sua conotação originalmente elitista, o termo 'educação liberal' nas sociedades democráticas passou a ser substituído pela expressão 'educação geral' a fim de denotar a superação do antigo dualismo de classe, implícito no primeiro termo", afirma Santos Filho.

"É interessante observar que esses dois componentes das artes liberais gerais [artes discursivas e artes reais] formaram duas culturas que originalmente estavam integradas na formação dos jovens universitários e, posteriormente, se distanciaram e se separaram. O diálogo dessas duas vertentes de certo modo permaneceu nas universidades norte-americanas. No entanto, a tradição das universidades latinas e latino-americanas seguiu a influência da universidade profissionalizante napoleônica e transferiu para o ensino médio, sob a forma de curso colegial clássico e curso colegial científico, a antiga tradição das artes liberais da Faculdade de Artes", explica Santos Filho no artigo.


Fonte: Guilherme Gorgulho- Revista Unicamp Ens. Superior



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