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Auto de Natal

21/12/2015 - 11:28h

Envelhecer é ver o Papai Noel chegar todo ano, cada vez mais magro, mais cansado, mais “sei lá meu, que chatice”: tudo isso de novo, do chester ao peru, passando pela farofa doce, pelas frutas secas e molhadas, pelo porquinho abatido de maçã na boca, como se fosse a cereja do bolo, enquanto em volta da mesa os canibais se reúnem, fingindo uma alegria que não sentem mais, ao som da canção que deixou Simone mais rica e nós mais nostálgicos: “então é Natal, a festa cristã, do velho e do novo, do amor como um todo.”

Eu sei que Natal é a festa cristã mais esperada pelas famílias, por mil motivos diferentes de Cristo, mas não estou criticando a festa. Festa é festa. Em função das crianças e dos jovens que ainda não ficaram velhos, que ainda não ganharam todos os relógios, todos os carros, todos os celulares, todos os objetos de desejo, nós continuamos organizando os nossos natais, fazendo as nossas correrias, gravitando em torno da data, e nos deslocando de aviões para mais perto dos que estão longe, porque queremos aguardar, todos juntos, as doze badaladas do relógio que nos levam à meia noite do dia 24 e 31 de dezembro, sem esquecer-se de assistir o especial da Globo, com Roberto Carlos, no intervalo entre as duas datas.

Envelhecer é reconhecer que o papai Noel da família, aquele personagem que todo ano se vestia de bom velhinho, já não é mais o mesmo. Porque morreu, porque cansou, porque encheu o saco, muitas vezes, e agora comparece à festa com passos hesitantes, vazio de saco e de esperanças. Ter que descolar outro Papai Noel no meio da parentela é a maior prova de que para os mais velhos, a festa desbotou e alguém precisa urgente assumir as rédeas da coordenação sob pena de não haver reuniões familiares nessa datas.

Quando dezembro chega, eu faço um inventário do que me espera. A logística operacional agora é pequena: vou onde me convidam, levo o que me pedem. Quase nunca me pedem coisa alguma, então o que levo são presentes.

Esse é outro capítulo que me angustia: o que comprar para quem tem tudo? À medida que os filhos crescem, casam e adquirem rendas, cada um providencia a compra do que deseja, muito antes do Natal, no decorrer dos dias comuns, de maneira que, encontrar algo verdadeiramente original e - ainda desejado- é tarefa difícil.

Diante da impossibilidade, opto por presentear com objetos de consumo: uma camisa para um, um pijama para o outro, um perfume para quem já ganhou camisa e já ganhou pijama nos anos anteriores, e assim com esses presentes absolutamente dispensáveis engrosso a fila das camisas no armário, dos pijamas na gaveta, dos perfumes no banheiro.

O problema não é meu, é deles. Lógico que não espero nenhuma atitude arrebatadora de gratidão e enlevo na abertura do pacote, apenas um sorriso, um agradecimento, e se o presenteado não esquecer-se de levar o pacote, na hora de ir embora, já me dou por satisfeita.

O final do ano é um termômetro eficaz para medir o que a repetição dos dias, das datas e da vida comum realizou em nós. Se esperar o jantar ser servido à meia noite não arrancar de você nenhuma íntima reclamação solitária dos seus para os seus neurônios, conte 100 pontos. Se vestir aquela roupa especial só para se sentar na sala, enquanto espera um jantar que nunca sai, não lhe incomodar, conte mais 100 pontos. Se beijar e abraçar aquele povo todo, que o seu filho convidou, e você mal conhece, não lhe causa nenhum tipo de desconforto, nenhuma lembrança íntima de alguém que você queria muito abraçar e não pode mais, conte 400 pontos. Se o cardápio tiver aquela particularidade pertinente à sua origem, aquele prato que a sua bisavó fazia, e sua avó fazia, e isso significa que você tem mãe que ainda o faz, conte 200 pontos.

Na soma dos pontos, não se esqueça: nunca subtraia nada na frente dos que preenchem a pontuação máxima. Porque se tem uma coisa que o Natal e o Ano Novo não admitem é que você admita as suas angústias existenciais.

Jamais confesse saudades no mês de dezembro, e muito menos tristeza no mês de janeiro. Procure todos os bons motivos que você ainda tenha para comemorar, e comemore, nem que seja o seu nível de reservatório insulínico bem controlado que lhe permita comer uma sobremesa sem culpa.

Dezembro e janeiro não é para os fracos. Eu que sou forte, já comprei a minha beca, já preparei o meu sorriso, já afofei o meu colo, já providenciei a minha passagem de avião, já comprei presentes, já escondi a dor e enfiei a saudade dentro da fronha do meu travesseiro. A única hora em que ela pode aparecer é na hora que vou dormir. Para não estragar a festa dos outros.

O auto de Natal também é isso: que cada pessoa, de cada família, busque em sua reserva de amor, a melhor roupa, o melhor abraço, a melhor cantiga, a melhor lembrança, a melhor oração, a melhor receita, o melhor sorriso, o melhor vinho, as melhores esperanças.

Tudo de bom para todos nós, e que janeiro nos encontre na certeza de que fizemos o melhor pelos nossos queridos ainda presentes nesta vida. 
 

 Escritora Ana Maria Ribas Bernardelli


Fonte: Ana Maria Ribas Bernardelli

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