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'O mundo não é lugar de paz'

15/06/2015 - 12:10h

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O mundo nunca esteve tão necessitado de filosofia. Os filósofos são os gurus da atualidade. Não substituem a fé e a crença no Absoluto, mas nos ajudam a suportar o tempo de espera, o hiato que antecede o que cada um aguarda, com base na fé.

Esta semana me dei conta do quanto estou flertando com a filosofia, não porque creio que ela trará respostas para todas as minhas perguntas, mas porque ajuda a entender que algumas perguntas, por mais legítimas que sejam, jamais terão respostas. Terei que conviver com um mundo que não me oferece nenhuma alternativa correta, embora me apresente várias delas.

John Gray é um dos maiores filósofos vivos, segundo a Revista Época, que o entrevistou esta semana. Eu, sinceramente, não o conhecia. Além de filósofo tem fama de guru, antecipando acontecimentos e tendências. Acertou na mosca quando previu o esfacelamento do comunismo e as consequências da guerra no Iraque. Ele virá ao Brasil para uma série de palestras em São Paulo e Porto Alegre, pelo ciclo de Conferências Fronteiras do Pensamento.

A primeira coisa que me atraiu na matéria foi a imagem de um homem velho, sério, bem vestido, com um olhar cético e uma expressão de pleno conforto diante da câmera, numa pose descuidada, mas perfeita para a Entrevista que concedeu: um pensador que se apoia na parede, por não confiar na instituição humana.

Fiquei espantada com as nossas coincidências “filosóficas.” Penso exatamente como ele pensa. E o fato de pensar da mesma maneira, não aliviou a minha perplexidade, que afinal, é algo que procuro apaziguar quando busco ajuda na filosofia. Pelo contrário: a fala de John Gray acentuou o meu desalento, já bem “desalentado.”

Gray diz, entre outras coisas, que o mundo não vive, -e não viverá-, uma era de pacifismo, e que a sociedade não se tornou, -e nem se tornará- mais altruísta, por conta de uma idealizada conexão global entre os povos. Disse que a globalização só fez piorar a qualidade de vida dos povos que viviam em sociedades compartimentadas.

Deu dois exemplos interessantes e verdadeiros: Os conflitos na Líbia e a zona do euro.

Reino Unido, França e EUA derrubaram o regime de Muammar Khadafi. Que o cara era um ditador tirano, a comunidade internacional sabia e, por saber, comemorou a sua queda. Bingo! Mas - e ai entra a minha coincidência interpretativa com o refinado pensamento de Gray- o que veio depois foi a demonstração inequívoca de que não se deve mexer na soberania de um país, sem prever reações em massa, e antecipar ações que possam responder a essas reações, evitando-se uma convulsão social.

Khadafi era um tirano tribal, mas entendia o “funcionamento” do seu povo. Cada povo tem as suas particularidades, inclusive na maneira de responder a um governo que pretenda instaurar a justiça. Lidar com um povo que nasceu e cresceu sob as barbas de um Khadafi, exigiria um outro Khadafi melhorado. Não se achou um cloninho khadafiano melhorado e o governo líbio que se formou, não encontrou a fórmula para governar a nação. O resultado é que o país vive hoje em estado de anarquia.

Gray, diz elegantemente, na entrevista, o que eu estou dizendo de maneira debochada, porque não sou John Gray e não tenho nenhuma obrigação de ser politicamente correta. As questões que ele levanta são todas insinuadas, mas eu vou encarar cada uma delas:
- Por que os tais países que se meteram na vida alheia não acolhem agora a onda de refugiados e imigrantes que desembarcam na Itália?
- Eles não eram bonzinhos?
-Não foram à Líbia promover justiça social?
Pois que abram os portões da imigração para ajudar esse povo que está mais perdido do que cego em tiroteio.
- Fazem isso? Fazem nada!

Khadafi era um ditador “conhecido” e os países que o invadiram não têm nenhum compromisso com a nação, e nesse efeito cascata, nessa transição do conhecido para o desconhecido, destruiu-se a vida já destruída dos domésticos da Líbia.

Moral da história: quem não pode ajudar, ou não quer ajudar, não deveria atrapalhar e nem começar o que não poderia terminar. Deixassem aquele povo quieto, porque quem lida com abelhas, sabe o jeito certo de tratar com os seus parentes marimbondos. Tenho dito! Ponto.

Sobre a zona do euro, vou dizer apenas o que ele disse, mas no final acrescentarei as minhas observações pessoais acerca do reflexo dessa indexação na vida da minha parentela espanhola.

Ele disse que “deslocamentos econômicos tendem a produzir políticas tóxicas.” Disse que a zona do euro produz uma massa gigantesca de desempregados na Grécia, na Espanha, na Itália, na França e que esse desemprego dá origem a partidos de extrema direita como os dos anos de 1930. E ensinou a grande lição: deve-se evitar a qualquer custo períodos com 25% da população desempregada, acrescentando que, na Espanha, o desemprego entre os jovens supera 50%.

Para evitar o que? Para evitar partidos malucos que, em desespero, queiram ressuscitar guerras revolucionárias e tribais – acréscimo meu.

Em 1997, fui visitar a parentela espalhada entre “pueblos” e grandes metrópoles, na Espanha. Esperava encontrar camponeses no campo, mas fui agradavelmente surpreendida por uma elite pensante, em todos os lugares . Ao voltar para o Brasil, desejei que os meus pais explicassem porque deixaram a Espanha, se os que ali ficaram viviam uma economia estável, próspera, e amena. Escutei a velha história da guerra espanhola e do general Franco, como o responsável pelas atrocidades que levaram muitos espanhóis a abandonar o país. Os anos se passaram, e hoje, vejo com pesar, que a antiga prosperidade foi substituída por tempos difíceis. Não almejo mais a cidadania espanhola, que me parecia estofada em princípios de respeito ao cidadão, embora tenha um profundo carinho por esse povo e pelos touros, à exceção dos toureiros. Aos toureiros, o meu mais sublime desejo de que tenham a virilha perfurada pelos cornos, e não saiam vivos da arena, para que não voltem a praticar o delito.

Como se vê sou uma filósofa menos polida do que John Gray. No meu sangue bufa um touro brabo contra toda a sorte de injustiças malignas, mas não tão aprimorado, a ponto de oferecer a outra face e acreditar que o mundo irá melhorar.

A mensagem que John Gray passa é uma mensagem que antecipa tempos difíceis e por isso seus críticos o chamam de pessimista apocalíptico. Estou nessa corrente. Tentei não me engajar nela, mas tenho que admitir: acho o mundo um lugar muito perigoso. A violência e o sentimento de posse está dentro do DNA da humanidade. Quem finca o pé no rincão alheio, mesmo que seja para destituir um tirano, quer exercer um novo tipo de tirania: a tirania do colonialismo que sempre se julga acima e além do bem e do mal.

Quando estive em Israel, na faixa de Gaza, vi soldados israelenses exercendo uma tirania “fina” feita de fazer o nativo da terra esperar horas para cruzar uma fronteira imaginária, pelo simples prazer de faze-lo esperar. Por que eu pude passar e ele não? Porque ele era objeto de dominação. Apenas um objeto de dominação.

Não há perspectiva de que o mundo melhore, porque o ser humano não melhora. A reportagem também informa que um país cheio de cidadãos “melhorados” como EUA ainda exerce a prática da tortura, sob o nome pomposo de “Técnica Avançada de Interrogatório”. Um dos métodos, também conhecido por “waterboarding” enfia a cabeça do prisioneiro num tanque com água, e lá o mantém, até quase a morte. Acrescento que a tecnologia patenteada pelo Brasil nos anos da ditadura, incluía um choque elétrico, só para mostrar ao mundo que o brasileiro faz melhor um “waterboarding”. Temos que ser melhores em alguma coisa.

Sob o ponto de vista de Gray a paz é uma utopia. E o pior da minha visão – eu compartilho agora com todos vocês: é o sentimento de que a guerra existe em menor escala dentro de cada um de nós.
As pequenas guerras internas que produzimos e alimentamos são geradoras de grandes guerras que se alimentam de pequenas guerras, num eterno círculo vicioso que nunca termina e que faz o cidadão de Gaza esperar horas para passar por um posto policial israelense, apenas porque o soldado de plantão com uma metralhadora, ainda não encontrou um antídoto para a sua perversa mini guerra interior, a mesma que sustenta a grande guerra religiosa no Oriente médio, a mesma que promoveu a guerra no Vietnã, no Camboja e no Laos, a mesma que promoveu as guerras neo-coloniais financiadas por nações poderosas, como acontece ainda hoje na Ucrânia, a mesma que faz adolescentes no Brasil esfolarem um cão vivo, a mesma odiosa guerra que alcança cidadãos de primeiro, de segundo, de terceiro, e de último mundo, até o submundo do inconsciente coletivo que se guia por um instinto que pede sangue, seja ele de touros, de cães e de homens.

Provocações Filosóficas e Escritos de Ana Maria Ribas Bernardelli


Fonte: www.anamariaribas.com.br

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