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O que você faz com as coisas ruins?

23/06/2015 - 13:06h

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É de Walter Casagrande Júnior, ex jogador de futebol e comentarista esportivo,  a provocação filosófica deste dia, com a frase que ele concedeu ao Jornal Agora: “ Como não morri, o infarto só me trouxe coisas boas.”

Depois do infarto, Walter adotou medidas sanitárias:  deixou de fumar e de beber,  passou a alimentar-se com  bom senso, fazendo escolhas inteligentes na hora de levar a comida  para o prato, e incluiu na agenda diária uma rotina de exercícios físicos.

 Ou seja: quase morreu, não morreu, e sob a iminente ameaça de morte, ganhou qualidade de vida.

Essa fala do comentarista esportivo é altamente filosófica e nos leva a refletir não apenas em questões de saúde, mas nas tantas coisas ruins que nos acontecem e que acabam por transformar radicalmente as nossas vidas, de  maneira positiva.

Quando nos sentimos premidos por uma situação desagradável, a maioria de nós não é capaz de considerar o assunto sob outra ótica, nem de acreditar que do mal possa advir alguma coisa que nos transforme favoravelmente. Mas a verdade é que, sem “infartos” de qualquer  natureza,  nos mantemos acomodados,  e a mente permanece fechada para novas possibilidades.

Todo o processo de mudança vem sempre acompanhado de ansiedade. A ansiedade  oferece uma resistência passiva para  conservar o  que  nos parece a única alternativa existente. Mas na verdade, nos opomos  a qualquer  mudança não porque nos faltem alternativas,  mas porque a mudança,  em si,  nos transtorna.

Tenho uma treinadora física que faz das minhas manhãs motivos de micro-ansiedade. Ela nunca mantém o mesmo treino dois dias consecutivos,  e eu nunca sei o que ela vai inventar quando aparece na minha frente com cordas, bolas, elásticos e outros dispositivos manuais que parecem inofensivos,  mas se revelam desafiadoras maneiras de  praticar um treino.

 Eu sou como a maioria de  nós: não gosto de mudanças. A princípio, algo dentro de mim se rebela, e eu me pergunto por que não manter  o  modelo  anterior, cuja técnica já me era familiar. A resposta dela é que o corpo se acostuma e o desafio precisa ser reinventado para evitar o costume.

Em questões de condicionamento físico o costume é altamente inconveniente. O treino precisa driblar a zona de conforto para  conseguir um ganho muscular e assim sucessivamente, dia após dia.

Na vida, as coisas quase sempre funcionam da mesma maneira. É preciso reinventar o trabalho, o namoro, o casamento, o lazer, as viagens, os finais de semana, a prática da fé, a cidadania, o estilo de vida,  para conseguir algum ganho.  Mas nenhuma dessas áreas serão reinventadas se elas não entrarem no “modo infarto”. Quase tudo tende a ficar igual por tempo demais, até que, de tão igual, as pessoas não acreditem em alternativas viáveis e desistam da novidade de vida para viver uma existência medíocre,  à beira de um quadro depressivo.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Vanderbilt, em Nashville, Estados Unidos, demonstrou que cocaína, beijo, e chocolate, tem algo em comum:   estimulam o bem-estar do sistema de recompensa da dopamina. A mesma pesquisa sugere que comportamentos competitivos e até agressivos podem ter efeito bioquímico similar no cérebro e também fornecer a recompensa da dopamina.

 A cocaína causa dependência e efeitos devastadores no sistema nervoso central. Fiquemos, pois, com o beijo e o chocolate, não necessariamente nessa ordem. 

Sinto lhes informar que o  indivíduo acostumado a uma rotina depressiva, com uma vida sem sabor, só  vai aceitar o chocolate, se ele for ao leite, com muito açúcar e pouco cacau. O indivíduo deprimido  não fará questão de  beijo na boca. O beijo na boca só funciona como recompensa  para quem está a fim de beijar na boca. Das três substâncias destinadas a oferecer a recompensa da dopamina, sobrou apenas o chocolate.

Resta-nos, então, a última sugestão: adotar um comportamento competitivo e/ou agressivo. Mas quem agride um sistema que lhe agrada, e que não exige habilidades novas, apenas o comodismo das preferências individuais?   Para  desenvolver um comportamento competitivo/agressivo, o competidor/agressor precisa reconhecer um perigo iminente ameaçando a sua vidinha acostumada. Algo como o rugido de um leão na savana.  Como um infarto, por exemplo.

Foi o que Casagrande fez: sentindo-se ameaçado, partiu para cima do infarte, com um comportamento competitivo/agressivo. Era o infarte ou ele, e nessa, o ex-jogador não poderia se manter no “banco de reservas.”  Decidiu-se pelo “vamos ver quem ganha.”

Pode parecer louco,  mas pela fala de Casagrande, a mudança do estilo de vida lhe trouxe uma recompensa dopamínica que o motiva a continuar vivo. 

No “vamos ver quem ganha” nos encaixamos todos: tudo na vida pode ser entendido como um processo competitivo. Competir e partir para cima, pode ser melhor do que estagnar e morrer sem oferecer resistência.

 Dá para estabelecer um “campeonato” com o namorado, com o  trabalho, com o casamento, com o lazer, com as viagens, com o final de semana, com a prática da fé, com a cidadania, com o estilo de vida, com tudo o que está ruim, de maneira a mudar os nossos paradigmas e romper os lacres que nos mantém em estado de debilidade acomodativa.

 A vida pode se tornar um vale tudo para não se tornar um vale nada. Pode melhorar se permitirmos a mudança que opera a melhora. E pode piorar se nos mantivermos acomodados e não oferecermos resistência àquilo que nos ameaça. O grande diferencial é  o que fazemos com as coisas ruins. O momento inicial da mudança nunca deve ser visto ou entendido como o resultado final. O resultado final só aparece após algum tempo,  com a sequência de atitudes que tomamos, e a maneira como interagimos com aquilo que transtornou a nossa realidade.

Um comportamento passivo só pode ser adotado quando tudo vai bem. Quanto vai mal, o susto inicial nos leva a chorar, a reclamar, a lamentar, mas passado o luto inicial, temos que reinventar os nossos recursos. Ficar chorando o leite derramado não ajuda ninguém a obter um novo litro de leite, supondo-se que o leite não estivesse disponível na prateleira dos supermercados. Já sair de casa, comprar uma vaca, tratar da vaca, ter a paciência de esperar que ela produza o leite,  tirar o leite, e finalmente voltar a bebe-lo,  nos insere numa nova dinâmica competitiva. E tudo começou quando o leite foi derramado. O gatilho  inicial que nos arranca do comodismo é sempre uma coisa ruim.

Se o Casagrande - que nem é tão grande assim- posto que mortal, declara a sua adesão na batalha pela vida, após sofrer um infarte, nada pode ser tão impossível que não mereça de nós a luta, o combate, a determinação, a superação, a capacidade de  olhar-se  no espelho, através das lágrimas,  e não visualizar  um camundongo, ou um pé de alface, mas um homem, uma mulher, um ser combativo,  em toda a acepção moral e espiritual da palavra.

Provocações Filosóficas e Escritos de Ana Maria Ribas Bernardelli


Fonte: www.anamariariaribas.com.br

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