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Vão mesmo 'de encontro a'?

14/01/2016 - 00:03h

Neste espaço já afirmei várias vezes que, em língua, o que é "certo" hoje pode ter sido "errado" ontem. No século 17, Gregório de Matos escreveu "...da vossa alta piedade me despido", porque era "despido" a forma "certa" da primeira do singular do presente do indicativo de "despedir" (que já tinha sido "despidir" e "despidyr"). Hoje a forma usada é "despeço", que se apoia na flexão equivalente de "pedir" ("peço").

Pode-se falar também da mudança de valor de formas verbais. Não preciso explicar o que significa hoje a locução "tenho dito" em "Tenho dito a eles que essas coisas...", mas qual será o valor dessa locução quando se encerra com veemência um pronunciamento ("E tenho dito!")?

Trata-se de resquício do valor que essa locução já teve. "Tenho feito" já significou "fiz", "tenho visto" já significou "vi", portanto "tenho dito" já significou "disse". Moral da história: "E tenho dito" significava/significa "E (eu) disse", isto é, "Eu disse o que havia para ser dito".

Há algum tempo a Unicamp incluiu no seu Vestibular uma questão que se apoiava neste texto, publicado em 1895: "Tem havido no Mar Negro grande tempestade, naufragando grande número de embarcações. Até agora o mar tem arrojado à praia mais de 80 cadáveres...".

A expressão "grande tempestade" (no singular) impede que se entenda "tem havido" com o sentido hodierno. "Tem havido" significava "houve"; "tem arrojado" significava "arrojou" (= "lançou").

Outras mudanças de valor, que podem ocorrer por diversas razões, nem sempre são incorporadas ao uso formal. Um desses casos é o da locução "de encontro a", que, na língua culta, desde sempre equivale a "contra", "em oposição a", embora na língua corrente seja largamente usada com o seu sentido oposto. É um tal de "O projeto vem de encontro ao nosso ideal, por isso vamos aceitá-lo", que já se tornou difícil empregar "de encontro a" com o seu sentido original.

Veja o que escreveu recentemente a jornalista Juliana Vines no blog "A Chata das Dietas" sobre o excesso de gordura de um recém-lançado sanduíche: "A iniciativa vai de encontro à onda saudável que parecia ter atingido as redes de fast food". Perfeito, não? A relação entre a gordura do sanduíche e a tal "onda saudável" é mesmo de oposição.

Agora veja o que saiu dia desses sobre a renovação do contrato de dois jogadores do Vasco da Gama: "As renovações contratuais vão de encontro as afirmações do presidente Eurico Miranda de que os dois jogadores eram inegociáveis e permaneceriam em São Januário".

E então, caro leitor? As renovações vão mesmo de encontro às (e não "as", como saiu) afirmações de Eurico? É claro que não, a menos que se considere legítima a inversão do sentido da locução "de encontro a" (essa inversão ainda não encontra abrigo nos dicionários).

Como sou macaco velho, fui ao site do Vasco e constatei que tinha havido uma transcrição (ruim) do que o site publicara. Sabe o que estava lá? Exatamente isto: "As renovações contratuais vão ao encontro das afirmações do presidente Eurico Miranda...". O texto do site do Vasco foi redigido de acordo com o que se vê na escrita formal culta.

Talvez pelo incontrolável cacoete de empregar sempre "de encontro a" (qualquer que seja o sentido da mensagem), até na transcrição de um texto se inverte o "sinal" dessa locução... É isso.


Fonte: Folha Educação

STONE EMPREENDEDOR

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